sábado, 13 de junho de 2015

TAP

Em período de campanha eleitoral, tenho feito um esforço para não fazer comentários no meu blog. Resisti à tentação de comentar as 8 ou 9 nomeações ou renovações de comissões de serviço para a nossa representação permanente em Bruxelas feitas em vésperas de eleições, publicadas em Diário da Republica com efeitos, pasme-se, a partir de agosto ou setembro. E que ninguém diz nada. Mas no que toca à TAP, acho que há algumas perguntas básicas, que ainda não vi respondidas:

1- Diz-se que o estado verá mais dinheiro com a privatização se o tal plano de contenção de custos for cumprido à risca, e se os resultados de 2015 forem de acordo com as previsões. Tal, implicará, entre outras coisas, a suspensão de rotas. Ora, se vão chegar 53 novos aviões, como é que se vai suspendar rotas? O que vão fazer os 53 novos aviões? ficar estacionados no aeroporto? Substituir os actuais? Ninguém sabe. Não consigo perceber estas ditas opções estratégicas em que se anunciam novas rotas para alguns meses depois serem suspensas (Talin, Belgrado, São Petersburgo); ao mesmo tempo que se anunciam novos aviões e se anuncia a possível suspensão de rotas, outra vez (desta vez quais serão?). Há aqui muita falta de seriedade, má gestão ou algo pior. Esperemos que não e que tudo seja esclarecido.

2- Se um dos pilares estratégicos da proposta da suposta nova administração são novas rotas para a América Central, sul e do Norte, como é que isto se compatibiliza com a aparente suspensão da entrega dos A350? Ou os únicos aviões que interessam são agora os de Neelman? Não percebo.
Novas rotas para o longo curso e suspensão da entrega dos aviões que permitiriam esses mesmos voos. Escapa-me. A TAP tem aviões de longo curso cujo principal problema é o alto consumo de combustível, como é o caso dos A340 e de alguns A330. Vêm aviões em terceira mão da Azul? É essa a grande opção estratégica? Gostaria que tal fosse explicado.

Toda a gente sabe que Neelman é quem está por trás desta compra. O desafio vai ser provar que tal viola as regras comunitárias.

Finalmente, tenho ouvido muito falar sobre os voos para a China. Não me parece que a TAP tenha alguma vez tido grande interesse nisto. Primeiro, qualquer empresa concorrente da TAP hoje não viaja para a "China" - viaja para 5 ou 6 cidades na China com 1 ou 2 voos diários para cada uma. Segundo, o que se negociou foi um acordo de espaço aéreo que permite esses voos. Mas da mesma maneira que nenhuma empresa Chinesa ainda veio para Lisboa no seguimento desse acordo, tal acordo nunca implicou que a TAP estivesse à espera dos A350 para voar para lá. Nem faria muito sentido que o fizesse pois nesta fase do campeonato não é linear que fosse competitiva pois o mercado brasileiro com direcção à Ásia tem neste momento a Lufthansa, Air France, KLM, Emirates, Turkish, Singapoore e Qatar, todas elas com voos diretos para o Brasil, já para não falar da própria BA, Alitalia e Iberia. E não haverá muitos Europeus que fossem para a China fazendo a ligação em Lisboa. E no mercado Africano, apesar de a TAP ir para muitos destinos, consegue ser competitiva sobretudo por utilizar aviões de curto e médio curso ao contrário de uma Air France que vai para Dakar com um 777.  Mas em termos de numero de passageiros a TAP continua muito longe de outras companhias com destino ao continente Africano.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Grécia e Passos Coelho

O nosso grande PM por uma vez deveria de facto ter imitado a Alemanha. Mas resolveu ser ele próprio e deu no que deu. A reação à vitória do Syriza nas eleições gregas foi absolutamente um disparate.  Não sabia Passos Coelho que estava a falar não de um partido qualquer mas de um Primeiro Ministro recém eleito, que se vai sentar ao lado dele em Bruxelas? O tom depreciativo sobre o partido, o acto eleitoral e o PM Grego eleito mostra um profundo desrespeito pela Grécia e são de uma infelicidade monumental. Mais inteligente esteve Merkel que saudou e desejou felicidades. Que mais poderia fazer?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Austeridade e quantitative easing

As reacções ao quantitative easing anunciado ontem pelo BCE foram em muitos casos erradas, sobretudo porque confundem a medida que ontem foi anunciada como se a mesma se correspondesse ao fim da austeridade.  Nada mais errado.  O BCE tem estatutos claros e mostrou ao longo dos anos que é muito cioso da sua independência.  Aliás, nunca publicou as minutas das suas reuniões, que continuam de acesso exclusivo aos seus governadores.  Aceitou um diálogo sobre política monetária com o Parlamento Europeu mas o diálogo é geralmente apenas uma troca de impressões em que o BCE faz uma intervenção, os deputados algumas perguntas e nada mais. O BCE não permite influência na condução da sua política monetária.  Os críticos do funcionamento do BCE geralmente usam o exemplo do funcionamento do FED (que tem estatutos e mandato diferente) e do Banco de Inglaterra para afirmarem que o banco deveria conduzir a sua política monetária de maneira diferente, esquecendo que o BCE é, no quadro de bancos centrais, um banco recente e com necessidade de atingir um patamar de credibilidade que instituições com mais de 100 anos podem ter mas que instituições com 10 ou 20 anos não podem.  O BCE contudo cometeu um grande erro ao deixar-se associar à troika, porque a independência tem que ir nos dois sentidos - ao juntar-se à troika, o BCE abriu um precedente perigoso. Se por um lado a política monetária na zona euro é da responsabilidade do BCE, a política orçamental é da responsabilidade dos estados. O BCE, ao deixar-se incluir na troika cometeu um erro de palmatória que lhe pode custar caro no debate político futuro. Dito isto, quem pensa que o quantative easing significa o fim da austeridade não conhece o funcionamento e a ortodoxia dos bancos centros. O mandato do BCE é claro: manter a inflação (e não deflação) perto e abaixo dos 2%.  Ora, o BCE está muito longe deste objectivo, pois o risco de deflação é grande.  A maneira tecnicamente mais fácil e viável para gerir esta questão era precisamente o quantitative easing ao qual a Alemanha resistiu fortemente por ter receio que alguns dos países da zona euro entrem em insolvência. Contudo, seria ingénuo esperar que a Alemanha, Finlândia e outros países aceitassem uma solução que incluísse transferências orçamentais entre Estados. O que aconteceu ontem é apenas o início de um debate político que irá sem duvida começar, precisamente para evitar os excessos que muitos em Portugal já começaram a apregoar: o de que a medida de ontem implicou o fim da austeridade. Nada mais errado e convinha começar a preparar o debate político que ai vem porque não vai ser fácil. Pensar que a Alemanha cede sem contrapartidas e que a decisão do BCE foi tomada contra a Alemanha é não ter aprendido nada do que foram os últimos anos e do que custou a austeridade. O debate acabou de começar, está longe de estar terminado e seria bom para o país reflectir em profundidade sobre o que aí vem.
P.S - o que ontem se passou na PT é uma vergonha. Vender um activo como a PT a um fundo é de facto impressionante depois de uma crise financeira como a que tivemos. Teria sido suficiente ver o que aconteceu quando operação semelhante se realizou na empresa TDC (telecomunicações dinamarquesas). 10 anos depois, fazemos o mesmo. Bem sei que a PT é privada mas onde está a magistratura de influência? Ninguém condena publicamente o que ali se passa e os nossos governantes e Presidente refugiam-se apenas no facto de a empresa ser privada e que a matéria compete aos accionistas? É fantástico que depois de tantos exemplos de má gestão privada e de tanta falta de vergonha por parte de alguns accionistas ainda se tenha coragem de avançar com mais privatizações.  É o despudor total.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

ainda a TAP e a sua privatização - gestão danosa?

Não estivesse o país completamente absorvido nos casos judiciais actuais e a questão da TAP seria muito mais discutida de tão grave que é. O que está a acontecer começa a ser muito preocupante e o silêncio impera.  Parece que ninguém fala do facto que das empresas de bandeira que há, quase nenhuma viaja para o Porto (nem Air France, nem KLM, nem Alitalia só para falar de algumas).  Relativamente a Lisboa, voam quase todas, mas reduziram frequências.  A Alitalia nem vem. A Air France tem 4 voos no inverno, a KLM apenas 2 pasme-se.  Das grandes empresas mundiais só temos a Emirates.  Devemos ter das poucas capitais Europeias sem um voo para Atlanta.  Aliás, das empresas Norte Americanas, só mesmo a United continua a operar durante o inverno de Lisboa para NYC e nem tem um voo diário.  A Delta prefere operar rotas para Malaga ao invés de operar para Lisboa.  A importância da TAP é assim enorme. É à TAP que se deve o acesso ao nosso mercado e ao nosso país.  É nestas alturas que tenho pena que em Portugal não haja sindicatos fortes.  Imaginemos só anunciar uma privatização destas num país escandinavo, sem o acordo dos sindicatos? Impensável. Nem passaria pela cabeça de nenhum governo. Ou veja-se o recente exemplo da Air France: uma greve de semanas, até que a administração foi forçada a abandonar os projectos que tinha para o desenvolvimento da filial low cost Transavia. E a administração abandonou.  O que neste momento se passa na TAP começa a parecer algo semelhante a uma gestão danosa. E o surpreendente é que ninguém parece questionar os actos da administração e o próprio Ministro da Economia cada vez que vai ao Parlamento, não parece sair de lá muito incomodado. Ora vejamos:
1- A TAP anunciou a compra de novos aviões (usados) em 2013. Ao mesmo tempo lançou novas rotas, 10, que passaram a 11 com a re-abertura de Oviedo.
2- Os aviões, esses, não chegaram a horas. Ou seja, fretou-se aviões a outras companhias, gastando-se milhões, isto porque as novas 11 rotas já estavam anunciadas e havia que voar.  No mínimo, mau, muito mau, planeamento. Mas o assunto lá se foi resolvendo e como tipicamente acontece em Portugal, a culpa morre solteira.  Justificam-se atrasos na entrega de aviões como se isso não se devesse planear antecipadamente. 
3- O governo anuncia novamente a privatização da empresa. Algo surpreendente para quem fala de consensos, sobretudo porque o principal partido da oposição já se tinha mostrado contra.  A bem da verdade, no programa deste governo constava a privatização da TAP.  Custa-me assim a acreditar que a administração da TAP não soubesse da intenção do governo e tenha sido apanhada de surpresa. Se o foi é muito grave. Se não o foi, é ainda mais grave que agora utilize esse argumento como desculpa para suspensão de rotas. 
4- Algumas semanas depois do anuncio, eis que Fernando Pinto diz que num quadro de privatização o acesso da empresa a capital é mais difícil. Pelo que há que suspender rotas. Mas a administração da TAP não dialoga com o governo? Ou isto tudo é feito às três pancadas ou então há aqui muitas coisas mal contadas.
5- Num ano, a administração de uma empresa (TAP) consegue anunciar 11 novas rotas para depois anunciar a suspensão de 3 delas. E tudo isto, com um silêncio quase total, excepto um artigo ou outro publicado, que quase parece encomendado, geralmente a falar sobre a "irresponsabilidade" de funcionários.
6- Ora, acho que seria legitimo perguntar aos actuais administradores da TAP o seguinte:
6.1 - porque razão se investiu em novas rotas e em aviões se haveria dificuldades de tesouraria devido a um processo de privatização?
6.2- Quanto custou a abertura das novas rotas? É bom ter em mente que uma empresa de aviação tem que investir muito dinheiro no estudo e negociação que levam à abertura das novas rotas. Não é só ter aviões.  Não é algo barato, custa muito dinheiro. Só para se ter um exemplo, a TAP investiu 100 milhões de dólares na rota Lisboa - Porto Alegre em 2011 (Fernando Pinto sobre ligação para Porto Alegre). E investiu bem! Mas que custa dinheiro, custa... 
6.3- Quanto foi o investimento da TAP nas novas rotas que agora suspendeu? Estou a falar da rota Lisboa - Talim (rota que quase nenhuma empresa de bandeira faz: repare-se, nem Air France, nem KLM, nem Alitalia, nem Iberia voam para Talim, só mesmo a Lufthansa e a Finnair). Quanto custou à TAP dedicar um avião para 12 horas de operação (ida e volta)? Quanto custou à TAP a abertura da rota Lisboa - Belgrado e Lisboa - São Petersburgo, rotas que agora, apenas 2 ou 3 meses depois se suspende?  Não duvidei do lançamento das rotas, calculo que os estudos de mercado foram devidamente feitos. Contudo, suspender uma rota meses depois de a abrir é muito grave. É praticamente sinónimo de as fechar. 
6.4- Isto mesmo diz Fernando Pinto sobre a reabertura de Bissau. Diz ele que a TAP deixou de operar a rota e que devido a isso agora não há procura. Outras empresas ficaram com os passageiros da TAP diz o administrador.  Ora, se há outras empresas a operar, quais são? E porque se assina um contrato com as autoridades Guineenses para a re-abertura da rota em plena visita oficial se depois não se assume o compromisso?  O nosso grande Ministro responsável pela internacionalização não comenta?  É devido à Euroatlantic que faz um voo por semana? A Senegal airlines para Dakar? o voo semanal de RAM? Mas então não é isto que corre o risco de acontecer nas rotas que a TAP agora suspende, as tais novas rotas, outras empresa virão, ocuparão o lugar da TAP e todo o investimento feito vai para o lixo?
6.5- diz Fernando Pinto que cada dia de greve dos trabalhadores custa 5 milhões de euros à TAP. Seria útil saber quanto custam estes erros da administração da TAP à empresa. Acho que terão custado mais, muito mais. Porque é que ninguém assume responsabilidade?

Em França, com o que a actual administração da TAP está a fazer e com um processo destes de privatização, a Air France estaria paralisada há muito tempo.  Sorte tem Fernando Pinto e este Ministro da Economia de em Portugal os sindicatos serem hoje mais fracos e de o país estar focado noutras coisas. É pena que assim seja. O que se está a fazer com a TAP neste momento é de tal maneira grave que apenas se pode esperar que seja levado às últimas consequências.  Li hoje que os funcionários da TAP ponderam uma greve de 4 dias devido à privatização. Só me surpreende é que sejam 4.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Reestruturação da dívida e Pacto de estabilidade e crescimento

Uma vez mais o mecanismo de sanções previsto no pacto de estabilidade e crescimento não funcionou. A Comissão Europeia deu mais 3 meses a Itália, França e Bélgica para apresentarem medidas de correcção para défice e divida.  Nunca funcionou. Desta vez bastou uma carta do actual Ministro das Finanças Italiano e meu ex-professor Pier Carlo Padoan que pode ser lida aqui.  O mecanismo de sanções previsto já não é credível pois nunca foi aplicado e o primeiro país, convém não esquecer, a violar as regras do PEC foi a Alemanha. E a França. De facto, em Novembro de 2003, o Conselho votou contra a aplicação do procedimento por défice excessivo contra estes dois países.  Contrariamente ao que tinha sido defendido pelo ex-Ministro das Finanças Alemão em 1995, Theo Waigel, que era da opinião que as sanções deveriam ser objeto de aprovação automática, o que vingou foi a aprovação das mesmas em sede de Conselho. Assim, em 2003, o Conselho votou contra a proposta da Comissão. Mas em muitas outras ocasiões o mesmo se verificou. O PEC foi uma imposição Alemã e uma pré-condição para este país prescindir do marco. E foi aprovado em 1997 sem debate.  Naturalmente os Alemães exportaram o modelo que conheciam melhor que era o deles.  O problema é de incentivos, e neste caso, nunca houve incentivos para os Estados Membros agirem em acordo com as regras do PEC porque as mesmas não são credíveis.  O sistema de sanções não funciona porque os Estados Membros não querem sancionar os outros Estados Membros sob pena de poderem eles mesmos serem sancionados no futuro.  Convém recordar que o sistema vigente é uma cópia do sistema Alemão em que os Länder têm soberania orçamental e fiscal, sendo que a mesma é sujeita a uma disciplina e monitorização federal.  O próprio tribunal Constitucional Alemão impõe disciplina aos Länder.  Apesar disto, desde 1945, duas regiões Alemãs tiveram um "bail-out", Bremen e Saarland.  Tal como na UE, em que Estados Membros tiveram que ser socorridos apesar da existência no tratado de Maastricht que impedia que tal acontecesse.  O outro sistema existente é o Norte-Americano, que ao contrário do Alemão, é um modelo descentralizado, em que cada Estado tem a sua soberania orçamental e fiscal sem a tal imposição federal.  Durante as primeiras décadas da existência dos EUA, houve inúmeros "bail-outs" até que em 1840, o congresso Norte Americano disse não a mais "bail-outs" e desde 1840 que nunca mais houve qualquer "bail-out" a nenhum estado norte-americano, nem mesmo com a recente falência decretada pela cidade de Detroit. Sou da opinião que o modelo Americano deveria ser discutido na Europa pois pode ser opção para a zona euro, porque permite soberania orçamental aos Estados Membros. É aliás interessante comparar os valores da dívida dos Länder com o dos Estados Norte Americanos: o Estado com maior % de dívida relativamente ao PIB é Massachusetts, com 19.6%, Bremen tem cerca de 67%. A média na Alemanha é de cerca de 32%, nos Estados Unidos a média estadual é de cerca de 8.3%.  Contudo tal só funcionará com incentivos.  Tal como nos EUA, o único incentivo possível é o haver certezas de que "isto nunca mais acontecerá”: foi esse momento no congresso Americano em 1840 que fez com que os Estados percebessem que tal nunca mais aconteceria.  E o "isto" refere-se à reestruturação da divida.  O valor da dívida em alguns Estados Membros, entre os quais Portugal, não cessa de aumentar, apesar da austeridade vigente. O cenário ideal seriam políticas fiscais expansionistas e o fim da austeridade, políticas essas impossíveis de realizar dado o valor da dívida actual e do défice.  Ora, estamos perante um ciclo vicioso.  O problema na Europa é que tradicionalmente alguns países têm indisciplina orçamental.  Esta indisciplina não data de 2008, vem de há muito tempo.  E não somos só nós. Países como a Grécia, Itália, Bélgica têm uma dívida pública altíssima desde há muito anos. A única solução que a teoria económica preconiza para a resolução do problema da dívida é através da inflação, sendo que a solução neste caso seria pior do que a doença ou então a reestruturação da dívida.  A literatura existente (Rogoff, 2009) mostra que os países ganham rapidamente acesso aos mercados.  Seria de facto radical, os efeitos para a zona Euro seriam imensos, mas precisamente por isso, haveria incentivos para que a história não voltasse a repetir-se. O incentivo é chave para a solução do problema e esse incentivo passa pela percepção de não repetição do problema.  Não passa por regras pouco credíveis, pois a cláusula de "no-bailout" estava no tratado de Maastricht e isso não impediu o que aconteceu na Grécia, Portugal ou mesmo Espanha.  O debate não será fácil mas é necessário. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Europa e congresso do PS

Neste fim de semana falou-se muito sobre a Europa no congresso do PS. Longe parecem ir os tempos onde o tema era totalmente ignorado. Só isto é um passo em frente; é absolutamente necessário ter uma nova postura, construtiva, e não de confronto, com os nossos parceiros Europeus. A política Europeia faz-se através de consensos e de pontes.  Contudo, não podemos deixar de realçar alguns aspectos, que convinha que a esquerda Europeia tivesse em mente, sobretudo quando achamos que a culpa está toda no quadro Europeu. Alguns Estados Membros, aquando da discussão inicial sobre os critérios de Maastricht (anos noventa!), propuseram a criação de um critério sobre o desemprego. Tal proposta foi retirada por falta de consenso e em 1997 acabou por se realizar a cimeira europeia sobre o Emprego, que deu origem ao processo de Luxemburgo. Tentou-se novamente mais tarde apresentar a mesma proposta e um ex-PM Trabalhista (Blair) não permitiu que se avançasse com essa ideia.  Aliás, basta olhar para as taxas de desemprego na Europa em 1997 para se verificar que os problemas que existiam nessa altura, ainda hoje persistem, ou melhor, estão piores. E isto, apesar de estratégias europeias como a de Lisboa que preconizava que a Europa fosse a região do mundo mais dinâmica em 2010…os problemas da governança europeia não se resolvem com respostas pontuais a problemas mas sim com uma reflexão global, não só sobre o contexto Europeu mas também sobre o contexto mundial.
A “proposta” ou ideia apresentada no congresso do PS sobre a não contabilização do investimento nas contas do défice é algo positivo, óbvio e que peca por tardio. Eu próprio tive ocasião de o apresentar em 2003 aquando do debate sobre a revisão do pacto de estabilidade e crescimento, num estudo que publiquei no Instituto Jacques Delors (pode ler aqui.  Apesar de alguma flexibilidade introduzida, estamos ainda longe de um resultado satisfatório.  A verdade é que grande parte das soluções hoje apresentadas não são novas; o interessante do debate Europeu é que surgem 10 ou 15 anos depois e continuam válidas. Mas a história da integração Europeia é isso mesmo: faz-se em pequenos passos.  Contudo, ao invés de se estar a reinventar novas propostas acho que seria útil simplesmente fazer um apanhado do que até hoje foi proposto, pois tudo o que urge fazer já foi apresentado. Não são ideias novas que faltam mas sim o assumir uma discussão política séria sobre o assunto, sem medos e sem rodeios.  Como Pascal Lamy o fez, em 2002, quando a titulo pessoal publicou um texto com Jean Pisany Ferry onde propunha que o Eurogrupo fixasse o objectivo de inflação que o Banco Central Europeu apenas implementaria. Ou como as propostas do grupo de trabalho presidido por Robert Boyer em 1999 sobre a governança económica. Grande parte do que se deve fazer está lá. Não são precisos mais estudos e grupos de trabalho…
Há contudo propostas, que apesar de meritórias, me deixam grandes dúvidas como por exemplo a proposta de criação de um mecanismo de sanções para os indicadores sociais semelhante ao existente no PEC e que também foi mencionado no congresso. Ora, se o mecanismo de sanções do PEC não funcionou, porque razão sugerir outro mecanismo semelhante para uma área onde ainda por cima a Comissão Europeia não tem qualquer poder decisório, sobretudo porque os Estamos Membros não querem que tenha? Há passos a dar na política social Europeia, desde logo a criação de um salário mínimo Europeu, mas para isso há que convencer os socialistas escandinavos…ora aí está uma discussão que vale a pena ter.

Tal como muitos, penso que a proposta de Juncker sobre novos investimentos deveria ter ido mais longe. Acho contudo desajustado as criticas veementes de que foi alvo. Em primeiro lugar porque esta proposta é apresentada num quadro em que alguns Estados Membros nem querem pagar o que devem ao orçamento comunitário (Reino Unido). Em segundo lugar, porque me parece manifestamente infeliz criticar uma proposta afirmando que o investimento público é pouco sem se dizer onde querem que a Comissão vá buscar novos recursos.  Ou se faz um debate sobre os recursos próprios e contribuições dos Estados Membros ou então não se pode pedir à Comissão aquilo que ela não pode dar.  Enquanto o orçamento comunitário representar 1% do PIB, este problema persistirá. Por isso tenho que estar em profundo desacordo com aqueles que qualificaram o programa apresentado como uma farsa. É pouco, isso é. Mas também é aquilo que os Estados Membros querem que seja. E eu não me recordo de uma proposta Portuguesa sobre a necessidade de aumentar as contribuições dos Estados Membros.